Mediunidade e ciência – parte 1

Por Guilherme Riccioppo Rodrigues

O Espiritismo, como doutrina filosófica, assenta suas bases na crença na comunicação entre pessoas vivas e pessoas falecidas, também chamadas de desencarnados ou simplesmente de espíritos.

Essa comunicação se dá por intermédio de indivíduos com a especial habilidade de intermediar o contato entre esses dois “mundos” e que, por isso, recebem o nome de medianeiros ou médiuns.

A primeira pergunta que podemos nos fazer quando estamos de frente a uma comunicação mediúnica é: “Como podemos ter certeza de que um médium é realmente capaz de se comunicar com desencarnados?”

Essa pergunta é muito pertinente pois existem várias explicações normais para a ocorrência de uma “comunicação mediúnica”. Vejamos as mais importantes:

1) Leitura fria: ocorre quando o “médium” interpreta a linguagem corporal do indivíduo em busca de informações não verbais, que são utilizadas para dar maior confiabilidade à mensagem.

2) Efeito Forer: também chamado de falácia de validação pessoal, refere-se a observação de que as pessoas julgam exageradamente corretas informações supostamente feitas exclusivamente para elas, mas que na verdade são vagas e genéricas o bastante para se aplicarem a uma grande quantidade de pessoas. Esse efeito foi batizado após o Experimento Forer, realizado pelo psicólogo Bertram R. Forer. Neste, seus alunos precisavam avaliar o quanto se aplicava a si mesmos um texto genérico. Vejamos alguns exemplos:  “Você tem uma necessidade de ser querido e admirado por outros, e mesmo assim você faz críticas a si mesmo…As vezes você tem dúvidas se tomou a decisão certa…você fica insatisfeito com restrições e limitações…” . Esse efeito explica parcialmente a grande aceitação pessoal de certas práticas místicas e esotéricas, e aqui se inclui algumas comunicações mediúnicas.

3) Viés de confirmação: a pessoa tende a achar que são verdadeiras as informações que confirmem suas crenças ou que desejam acreditar. Imaginem o quanto os pais não desejariam receber uma mensagem do filho falecido? Isso os torna especialmente suscetíveis a aceitar qualquer informação marginalmente verdadeira como uma verdade inconteste.

4) Criptomnésia: significando memória “oculta” ou memória inconsciente, se aplicaria nos casos em que o médium teve contato prévio com a família e usa inconscientemente as informações obtidas por vias normais na construção da comunicação mediúnica.

5) Fraude: nesse caso o médium conscientemente está fraudando uma comunicação, incluindo dados ou informações que previamente obteve por fontes “terrenas”.

Devido a essa gama de possibilidades de explicações normais, a melhor forma de se ter certeza de que um médium é capaz de produzir comunicações “reais” é através do uso de medidas para controlar o acesso do médium a informações sobre a vida do espírito e dos familiares.

Allan Kardec estava atento a essa necessidade e por isso se valeu de medidas de controle em várias situações. Um caso típico foi descrito na Revista Espírita de Maio de 1859. Segundo o relato de Kardec, um médium que trabalhava com ele, chamado Bryon Dorgeval, alegara ter recebido uma sonata do espírito de Mozart. Esse trecho teria sido submetido a alguns músicos e todos reconheceram o estilo de Mozart. Para testar um pouco mais o caso, Kardec propôs a um membro da Sociedade Espírita de Paris, a pianista e aluna de Chopin, Sra. Davans, que tocasse diante dos outros membros da sociedade duas sonatas, uma escrita por Mozart em vida e outra a alegadamente mediúnica. Segundo Kardec, todos os presentes foram unânimes em reconhecer não só a perfeita identidade do gênero, mas a superioridade da composição espírita. Ressalte-se que não há, neste episódio, a descrição de qualquer especialista em Mozart que tenha dado o veredito final sobre a autoria da composição, mas serve-nos como ilustração da personalidade cética e questionadora de Allan Kardec.

Aliás, o ceticismo de Kardec e sua percepção da necessidade de controle se manifestaram mais fortemente na momento da elaboração dos livros básicos da Doutrina Espírita. Kardec traça, no prefácio do Evangelho Segundo o Espiritismo, as diretrizes de um método desenvolvido por ele frente a incerteza da veracidade das comunicações mediúnicas, chamado de Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE). Neste, Kardec comenta que a verdade é trazida por vários espíritos, em comunicação a vários médiuns de localidades diferentes e que devemos tomar cuidado com interpretação muito particular de um médium ou centro e que sempre devemos confrontar um conhecimento novo com o que é dito a esse respeito por outros médiuns. Vejamos:

“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.” – Allan Kardec (Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, Parte II)

Além do CUEE, Kardec valeu-se de um outro método para controlar as mensagens, que provavelmente é mais forte do que a própria CUEE. Para tentar minimizar a possibilidade que conhecimentos prévios dos médiuns entremeassem o conteúdo das respostas dos espíritos durante a elaboração do Livro dos Espíritos, Kardec valeu-se do concurso de médiuns jovens e mulheres, logo menos aptas, à época, a discutirem profundas questões filosóficas.

As irmãs Julie Baudin (15 anos) e Caroline Baudin (18 anos) foram as principais médiuns que participaram da primeira edição do Livro dos Espíritos (18 de abril de 1957) . Este foi principalmente revisado por Ruth Celine Japhet (20 anos) e Aline Carlotti (20 anos) . A segunda edição do Livros dos Espíritos (18 de março de 1860), que saltou de 501 para 1018 questões, contou principalmente com o concurso de Ermance de La Jonchére Dufaux (19 anos) .

O uso de médiuns tão jovens, torna menos provável que tenha saído delas respostas profundas como as citadas abaixo:

1. Que é Deus?
“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”

621. Onde está escrita a Lei de Deus?
“Na consciência.”

893. Qual a mais meritória de todas as virtudes?
“(…) A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade.”

967. Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?
“Em conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une lhes é fonte de suprema felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. (…).”

A despeito da boa intenção de Kardec em tentar impor alguns métodos de controle sobre o conteúdo mediúnico que recebia, tais mecanismos foram e são insuficientes, sob a ótica da metodologia científica atual, para estaber que essas informações realmente vieram por meios não-normais. Para tanto, seria necessário que fossem tomadas medidas preventivas contra todas as possibilidades de explicações normais explicitadas no início deste texto. A rigor essas medidas seriam, no mínimo, a realização de estudos com mensagens por procuração e com o uso de cartas controle.

Nos estudos com mensagens por procuração, uma terceira pessoa, geralmente um dos pesquisadores, assume o papel de intermediário entre o familiar que deseja receber a comunicação (o qual a partir de agora chamaremos de consulente) e o médium. Essa medida é útil para descartarmos a ocorrência de leitura fria. Nos estudos com o uso de cartas controle, cartas produzidas para outros consulentes são modificadas e apresentadas, forçando o consulente alvo a escolher qual, dentre as cartas disponíveis no estudo, foi-lhe realmente endereçada. Essa medida é útil para evitarmos a ocorrência de Efeito Forer e do viés de confirmação.

Com isso em mente, poderíamos imaginar vários modelos de estudo diferentes. Vamos lá:

1) Estudo aberto: Neste modelo, o médium tem total acesso ao consulente antes da psicografia e vice-versa. Como pode ser imaginado, nestes casos temos o menor poder de evidência científica possível, pelas razões já apresentadas.

Estudo aberto

2) Estudo cego: Aqui, o médium produz as psicografias sem ter tido contato prévio com o consultente, embora este saiba quem é o médium.

Estudo Cego

3) Estudo duplo-cego: Aqui entra um novo elemento em cena – o pesquisador – que assume o papel de “procurador”. Ele receberá informações do consulente e será o intermediário das informações prestadas pelo médium. Neste caso não há contato direto em médium e consulente, possibilitando o uso de cartas controle.

Duplo Cego

4) Estudo “multi-cego”: Este tipo de estudo foi denominado na língua inglesa de “Beyond double blind” e tomamos a liberdade de traduzir para o português com este nome. Nessa situação não existe apenas um pesquisador se portando como intermediário entre médiuns e consulentes, o que reduz muito a chance de fraude.

Multi Cego

Como iremos ver em seguida, a grande maioria dos estudos publicados nos últimos anos obedece a metodologia multi-cego.

Um ponto importante de se questionar é quais as informações que o procurador deve passar para o médium para que este dê início a psicografia? Em geral é dado o primeiro nome do espírito ou o primeiro nome do consulente ou uma foto neutra do espírito quando encarnado ou nenhuma informação.

Para entendermos um pouco mais da metodologia destes estudos, vou falar agora das cartas controle.

Imaginemos a situação hipotética de um estudo cego em que um médium produz duas mensagens direcionadas para dois consulentes.

2 mensagens 2 consulentes

Neste estudo, o pesquisador entra em cena e modifica as mensagens, trocando o nome fornecido pelo consulente, de modo que as duas mensagens podem, a primeira vista, ser apresentada para os dois consulentes que, por sua vez, terão que selecionar a mensagem originalmente direcionada para eles.

Mensagens X e Y

O conhecimento científico se baseia em probabilidades. Para que nosso estudo hipotético tenha validade científica, precisamos nos questionar qual a probabilidade do consulente 1 escolher ao acaso a mensagem 1. Se conseguimos provar que, nos estudos com um médium X, os consulentes conseguem escolher sua mensagem original com uma frequência muito maior do o que seria esperado pelo acaso, temos aí uma evidência a favor de uma explicação mediúnica para o fenômeno.

Para ficar mais claro, vamos imaginar alguns experimentos:

Experimento 1: 20 consulentes recebem 2 cartas cada um. Lembrando que em se tratando de duas cartas ao todo, a chance de se selecionar a correta pelo acaso é de 50%.

Continuando o experimento, no momento de selecionar qual carta lhes foram endereçadas, os consulentes conseguiram escolher corretamente 10 cartas ao todo. Isso pode ser considerado prova de comunicação mediúnica? Vejamos os cálculos:

20 cartas x 50% (chance de escolher a correta pelo acaso) = 10 cartas (risco pelo acaso)

Ou seja, o número de cartas selecionadas (10) foi igual ao número de cartas que seriam selecionadas pelo acaso, num cara ou coroa por exemplo. Logo, nosso experimento 1 não fornece evidência para uma comunicação mediúnica.

Experimento 2: 20 consulentes recebem 2 cartas cada um e escolhem corretamente 18 cartas.

Lembrando que 20 cartas x 50% (chance de escolher a correta pelo acaso) = 10 cartas (risco pelo acaso)

Esse resultado pode ser considerado prova de comunicação mediúnica? Como o número de cartas corretamente selecionadas (18) é muito maior do que o número de cartas que seriam selecionadas pelo acaso (10), nosso Experimento 2 fornece uma evidência científica de que houve comunicação mediúnica.

Experimento 3: 20 consulentes recebem 4 cartas cada um e escolhem corretamente 12 cartas.

Aqui a chance de escolher corretamente 1 em 4 cartas = 25%

Então 20 cartas x 25% = 5 cartas (risco pelo acaso).

Neste experimento, como o número de escolhas corretas (12) foi maior que o número que seriam escolhidos pelo acaso (5), há evidência científica de comunicação mediúnica.

Como a ciência determina o quão maior deve ser o valor encontrado num experimento, em relação ao encontrado ao acaso, para que se tenha uma hipótese científica confirmada? Ou seja, afirmamos que havia evidência de comunicação mediúnica nos experimentos 2 e 3 baseados na grande diferença entre o selecionado pelos consulentes e o que seria esperado pelo caso (Experimento 2: 18X10 e Experimento 3: 12X5), mas essa análise pode ficar difícil numa situação em que a diferença entre o obtido e o esperado pelo acaso seja menor (por exemplo 12X10).

Em geral o método científico recomenda que se determine qual a probabilidade daquela ocorrência ter sido feita pelo acaso e caso essa probabilidade seja menor que 5% considera-se que a hipótese levantada foi confirmada. Usa-se, nesses casos, a nomenclatura p<0,05 para dizer que a probabilidade daquele achado ser devido ao acaso é menor que 5%. Se tivermos um p<0,001 dizemos que a probabilidade é menor que 0,1%. Vejam que, conforme mencionei, a ciência não trabalha com verdades absolutas, mas com probabilidades.

Então vejamos os nossos experimentos, agora com as probabilidades calculadas:

Tabela experimentos jpg

A probabilidade da seleção de cartas ocorrida no Experimento 2 ter sido fruto do acaso é de 1,3%. No Experimento 3 é de 0,3%. Como ambas foram menor que 5%, logo podemos considerar que nesses estudos tivemos evidência científica favorecendo a hipótese de comunicação mediúnica.

Prosseguindo na nossa compreensão de como os estudos com mediunidade são realizados, precisamos adentrar nos modos de avaliação de uma mensagem.

Nos vários estudos publicados até hoje, vários métodos de avaliação de autenticidade diferentes tem sido sugeridos. Por seu uso amplamente aceito, vamos descrever dois destes métodos.

1) Escolha forçada: também chamado de método holístico, compreende a avaliação inteira da mensagem, a qual é posteriormente aceita ou descartada pelo consulente, possibilitando que a estatística seja calculada baseado em testes de probabilidades simples.

2) Análise item-a-item: também chamado de método atomístico, estabelece a avaliação da mensagem de forma fragmentada e a análise estatística é baseada na relação entre afirmações corretas ou erradas dentro da própria mensagem.

Partindo do pressuposto de que a ocorrência de uma comunicação mediúnica real pode estar sujeita a interferências intra e extra-médium, podemos supor que a análise item-a-item pode acarretar uma acentuada diminuição da magnitude de efeito de resultados oriundos de mensagens verdadeiras, o que poderia levar a análises estatísticas que erroneamente apontariam para uma hipótese nula, ou seja, para a ausência de efeito mediúnico. Para ficar mais claro, vejamos um novo experimento hipotético:

– Consulente X está participando de um estudo e deseja receber uma mensagem mediúnica de seu parente, chamado Edson.

Esta é a informação que o médium recebe. Sem nenhum familiar presente, fora do seu ambiente normal de atuação, o médium psicografa uma mensagem e o pesquisador seleciona 4 informações específicas para ser analisada pelo consulente:

*Maior jogador de futebol de todos os tempos (+1)

*Nascido em Três corações (+1)

*Grande ídolo do Corinthians (-1)

*Namorou uma apresentadora famosa chamada Angélica (-1)

Somatória = 0

Em se supondo que o consulente X está pensando num hipoteticamente já falecido Edson Arantes do Nascimento, como seria analisada essa mensagem pelos dois métodos descrito?

1) Método da escolha forçada: embora o consulente reconheça que há na carta informações incorretas, os acertos frente a tão pouca informação fornecida ao médium é algo inusitado, o que provavelmente levaria a se considerar que algum fenômeno anômalo está ocorrendo.

2) Método da análise item-a-item: embora tenham surgido informações verdadeiramente corretas, a presença de informações erradas anula matematicamente qualquer efeito anômalo, fazendo com que a mensagem tenha o mesmo poder de outra com informações inespecíficas.

Dentro do método de escolha forçada é possível se graduar a intensidade da acurácia das informações, o que obviamente refletirá na escolha ou descarte de uma determinada mensagem. Um dos métodos mais utilizados para esse fim é a escala Arizona Whole Reading Rating System (AWRRS), que em português poderia ser traduzida como Sistema de Avaliação de Mensagens Inteiras do Arizona. (Targ R, Katra J, Brown D, Wiegand W. Viewing the future: A pilot study with an error-detecting protocol. Journal of Scientific Exploration. 1995;9(3):67-80):

6- Mensagem excelente, incluindo aspectos de comunicação fortes e sem essencialmente qualquer informação incorreta

5- Mensagem boa, com relativamente pouca informação incorreta

4- Boa mensagem, com algumas informações incorretas

3- Mistura de informações corretas e incorretas, porém suficiente para indicar que uma comunicação com o desencarnado ocorreu

2- Alguma informação correta presente, porém não suficiente para indicar a ocorrência de comunicação

1- Pouca informação correta ou comunicação

0- Sem comunicação ou nenhuma informação correta.

Tendo as informações discutidas até este ponto, poderíamos levantar as características ideais para a realização de um estudo de acurácia mediúnica:

1 – Estudo multi-cego e controlado: para minimizar ao máximo a chance de fraude voluntária ou involuntária;

2 – Pré-seleção de médiuns : é importante que se estabeleça previamente, de forma aberta, a ostensividade da capacidade mediúnica, evitando-se assim que falsos médiuns sejam incluídos em estudos, diminuindo a magnitude dos efeitos encontrados;

3 – Pré-seleção de consulentes : idealmente deveriam ser pessoas sinceramente desejosas de receber uma mensagem de ente querido. Em tese, a chance de sucesso de uma comunicação é menor entre consulentes sem grande motivação para a comunicação;

4 – Presença de algum facilitador: nome ou foto do desencarnado por exemplo, para facilitar a conexão entre médium e desencarnado, tentando trazer o estudo um pouco mais próximo das condições normais de atuação destes médiuns;

5 – Verificação pós-teste da confiança do médium na ocorrência de comunicação : desde que se conceba que nem sempre a comunicação é possível, é essencial verificar com o médium sobre a própria impressão da ocorrência de comunicação anômala;

6 – Avaliações por escolha forçada : para evitar a diminuição de magnitude de efeito inerente ao método atomístico.

Nos últimos 15 anos, vários estudos foram realizados para tentar se verificar a acurácia de comunicações mediúnicas no mundo. A tabela 1 resume os principais achados destes estudos.

Tabela 1 Tabela Estudos

Inicialmente podemos perceber que dos 7 estudos realizados, 3 obtiveram resultados negativos (O’Keeffe et al., 2005; Jensen et al., 2009 e Kelly et al., 2011a) e 4 demonstraram resultados sugestivos de comunicação anômala.

Vamos analisar os estudos com resultados negativos. Se considerarmos as características que elencamos para um estudo de acurácia mediúnica ideal, veremos que eles apresentam várias falhas metodológicas. O trabalho de O’Keeffe não fez pré-seleção de consulentes. Estes foram escolhidos entre estudantes de uma Universidade e não sabemos quantos entre eles realmente esperavam uma comunicação ou apenas entraram no estudo como forma de “brincadeira”. Adicionalmente, os autores não passaram nenhuma informação para o médium sobre o desencarnado, a avaliação dos resultados foi exclusivamente feita pelo falho método item-a-item e os médiuns não foram consultados sobre a impressão pessoal de que tenha ocorrido de fato uma comunicação. De todos os estudos que pudemos ver este é, sem dúvida, o mais falho de todos.

O estudo de Jensen contou com apenas 1 médium, o que não está necessariamente errado. O grande problema com este estudo é que esta médium referiu não ter conseguido estabelecer um contato mediúnico de forma confiável em nenhum dos casos, o que é compreensível que ocorra em situações altamente controladas. Portanto, é questionável até se tenha publicado este estudo como uma análise de acurácia mediúnica, pois o próprio médium duvida que tenha conseguida qualquer comunicação anômala.

Por fim, o estudo de Kelly (2011a). Neste, não se fez qualquer tipo de pré-seleção de médiuns o que pode ter enviesado os seus resultados. Se analisarmos os resultados, veremos que dos 4 médiuns incluídos no estudo, 1 teve um desempenho acima do esperado pelo acaso, enquanto que os outros 3 não obtiveram bom desempenho, o que baixou a média de acurácia do grupo e fez com que o estudo fosse negativo. Um outro detalhe importante a ser considerado foi que neste experimento não foi passado ao médium nenhuma informação relativa ao desencarnado, algo que foi corrigido num experimento subsequente com resultados positivos.

Os 4 estudos com resultados positivos (Beischel et al., 2007; Kelly et al., 2011b; Rock et al., 2014 e Beischel et al., 2015) tiveram como características em comum o uso de algum facilitador e a preferência pelo método holístico de avaliação (exceto Kelly et al., 2011b). Considerando estes estudos como metodologicamente superiores aos que obtiveram resultados negativos, pelos motivos já explicados, pode-se afirmar que os mais recentes estudos, realizados com metodologia científica adequada, sugerem a ocorrência de transferência de informações por meios não-normais, o que significa uma ruptura no paradigma materialista atualmente predominante.

Embora a significância estatística satisfaça os critérios científicos atuais, uma análise individualizada dos estudos pode gerar a sensação de que as magnitudes de efeito são pequenas e portanto de pouco valor prático. Deve-se observar, entretanto, que tratamos aqui de estudos altamente controlados e não ecológicos, ou seja, fora do modus operandi habitual destes médiuns.

Para se julgar com mais critério as comunicações, faz-se necessário uma análise fenomenológica, qualitativa, de casos individuais. O artigo de Kelly (2011b) traz algumas descrições qualitativas interessantes, como na mensagem  ditada pelo professor de engenharia de materiais, fica a sugestão de leitura complementar.

Na segunda parte deste artigo iremos descrever alguns relatos de casos, que se por um lado são menos controlados do que os estudos acima, possibilitam uma riqueza fenomenológica muito grande, pois foram obtidas de maneira ecológica, ou seja, próximo ao modus operandi dos médiuns.

 Referências Bibliográficas:

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Beischel J, Schwartz GE. Anomalous information reception by research mediums demonstrated using a novel triple-blind protocol. Explore (NY). 2007 Jan-Feb;3(1):23-7.

Eisenbeiss W, Hassler D. An Assessment Of Ostensible Communications With A Deceased Grandmaster As Evidence For Survival”. Journal of the Society for Psychical Research. 2006; 70(2): 65-82

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Jensen CG, Cardeña E. A controlled, long-distance test of a professional medium. European Journal of Parapsychology 2009; 24(1), 53-67.

Kelly EW, Arcangel D. An investigation of mediums who claim to give information about deceased persons. J Nerv Ment Dis. 2011 Jan;199(1):11-7.

Kelly EW. Some Directions for Mediumship Research. Journal of Scientic Exploration 2010; 24(2); 247–282

Neppe VM: A detailed analysis of an important chess game: Revisiting ‘Maróczy versus Korchnoi’. Journal Soc. Psychical Research 2007; 71(3):129-147

O’keeffe C, Wiseman R. Testing alleged mediumship: methods and results. Br J Psychol. 2005 May;96(Pt 2):165-79.

Rock AD, Beischel J, Boccuzzi M, Biuso M. Discarnate Readings by Claimant Mediums: Assessing Phenomenology and Accuracy Under Beyond Double-Blind Conditions.Journal of Parapsychology, 78(2), 183–194

Rocha AC, Paraná D, Freire ES, Lotufo Neto F, Moreira-Almeida A. Investigating the fit and accuracy of alleged mediumistic writing: a case study of Chico Xavier’s letters. Explore (NY). 2014 Sep-Oct;10(5):300-8.